quinta-feira, 30 de junho de 2011
L'Âge d'Or / Las Hurdes
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Os Esquecidos

Algumas linhas sobre o filme
Eulàlia Jordá-Poblet, 2011
Não há dúvidas de que Buñuel realizou uma proeza rara neste filme “Os esquecidos”, realizado na década de 50, no México.
Realmente seu título, minimalista, conciso, abarca a totalidade dos personagens e os resume como aqueles que são os esquecidos da sociedade: malfeitores, abusadores de crianças, adolescentes, meninas, cães abandonados das ruas. Ninguém neste filme consegue ser “out”, todos pertencem a um conjunto que se harmoniza como em uma orquestra, cujas sonoridades se complementam em um quebra-cabeças de sonoridades tristes, trágicas, sombrias.
Em nenhum momento o gênio de Buñuel duvida das cartas marcadas observadas como que por detrás de uma porta através de um olho mágico, o olho do cineasta. Inflexível, encaminha sua mira certeira para a previsibilidade das tragédias sociais cujos elementos somados confirmam uma matemática angustiada, inexorável.
E olhem que em 1950, estes elementos ainda possuíam uma escala humana, palpável. Sessenta anos depois, tal escala se perdeu, as estatísticas tomaram seu lugar, os números de desassistidos, de “esquecidos”, de tão absurdamente altos, banalizaram-se. Hoje não há mais lugar para a pena, para a caridade, para a comiseração. Quero dizer que , na época da realização do filme, havia o velho cego, havia a mãe pobre e seus filhos, havia o “pederasta”, a criança desamparada, o rapaz ladino (Jaibo), o instituto correcional para os menores infratores, e que, bem ou mal, havia um lugar para todos bem definido, mesmo que para compor em uníssono uma desgraça.
Hoje o filme teria traços bem diferentes, não poderia ficar centrado apenas no humano, pois este foi, definitivamente, deixado de lado.
No filme “Os esquecidos”, todos sofrem, todos experimentam a bondade e a maldade, todos dão e recebem seu quinhão de dor.
Alguns personagens, no entanto, parecem ser naturalmente melhores que outros. À medida da progressão do filme, vê-se, no entanto, que pode ocorrer que eles ainda não tenham sido atingidos pelo veneno que se apresenta nestes lugares onde a luta para sobreviver é diária e extenuante, onde comer é uma proeza e lavar-se, um luxo. A ingenuidade dura pouco tempo quando têm -se que estar atento e incansavelmente optando pelo ataque ou pela defesa.
As respostas agressivas quase sempre são reativas e contraditórias (morte das galinhas pela mesma criança que a algum tempo atrás amava os animais), delicadezas surgem raramente na vida real (troca de presentes entre a menina e o mexicanozinho do interior), sonhos tentam transmutar a realidade mas acabam se transformando em pesadelos (a jovem mãe que, apenas no sonho do filho, conversa calmamente e lhe traz um enorme pedaço pedaço de carne , carne esta que logo é roubada pelo rapaz-problema-Jaibo, não chegando, por pouco, às mãos do garoto).
E é assim que ocorre tudo: por pouco. Por pouco a mãe perversa poderia se reconciliar com o filho que lhe pede, que suplica por seu amor. Por pouco ela poderia salvá-lo do instituto correcional. Por pouco ela poderia ter descoberto que era seu filho morto aquele jogado sobre o burrinho e, ao menos nesta hora, tê-lo amado e dele se despedido em um enterro digno. Por pouco Jaibo poderia ter se casado com a jovem viúva e experimentado pela primeira vez uma vida em família e o amor de verdade. Por pouco o diretor poderia ter salvado, não fosse a aparição de Jaibo, o menino de boa índole da prisão e da morte. Por pouco o mexicanozinho poderia ter tratado o velho cego como se fosse seu avô e este o amado como a quem ama um neto. Por pouco o velho cego poderia ter sido um avô para a menina que lhe traz o leite enquanto esta poderia tê-lo acarinhado ao invés de ter que odiá-lo pela conduta libidinosa em relação a ela.
E o que, para o cineasta, poderia ter eliminado este “pouco” para que seus personagens pudessem escapar da inevitabilidade de seus temíveis destinos? A resposta está já no início do filme, no “progresso” que um dia – segundo Buñuel e seu roteiro - esperançosamente virá , trazendo emprego, bens materiais e civilidade nos relacionamentos. Também vem pela boca do diretor do instituto de correção de menores, único personagem a possuir o privilégio de poder distanciar-se da situação e ter cultura suficiente para extrair dali uma crítica menos contaminada pelo preconceitos. É ele que têm a lucidez de dizer que é preciso profissionalizar os jovens, acreditar neles, na sua potencialidade, na sua responsabilidade.
Os animais de Buñuel
Eulàlia Jordà-Poblet, julho de 2011
Em “Os esquecidos”, os animais ora surgem para compor a cena, acentuando o drama, confirmando a miséria e o abandono ao qual os personagens estão entregues, ora assumem papéis fundamentais que podem passar despercebidos por olhares menos treinados, uma vez que as pessoas estão acostumadas a apenas “notar” os animais como “atores” coadjuvantes, e isto, na melhor das hipóteses.
As cenas exteriores, farta em mostrar cães magros, sem rumo, lembram a frase de Lygia Fagundes Telles que ao tentar explicitar o que sentia ao ver os cães abandonados nas ruas, comparou-os a “nuvens errantes”. Os cães do filme se apresentam tal qual estas nuvens, que vão para lá e para cá, sem nenhum sentido a não ser o de uma vida repleta de dor e de fome crônicas, pior ainda porque associada a uma ingenuidade própria do cão diante da violência humana.
São eles, no entanto, na primeira parte do filme, responsáveis por uma das raras cenas de bem-aventurança e paz naquele bairro pobre mexicano . A cena funciona como uma bandeira branca no cenário que vai se tornando cada vez mais noturno, denso, sombrio. Ocorre depois que o meninozinho mexicano, oriundo do “campo”, decide abandonar o choro e lutar por sua vida, comendo e socializando-se com o mundo da forma como ele se apresenta. E nesta cena belíssima ele se associa ao outro menino abandonado pela mãe, logo ele, menino abandonado pelo pai, enquanto os cães, abandonados por todos, a eles se reúnem compondo um quadro de graciosa solidariedade. Graciosa em todos os sentidos: pela gratuidade da amizade entre seus componentes e que não passa por um preço, e pela espontaneidade que as crianças e os animais têm. Embora a noite onde os meninos/cães mergulham esteja à espera, como que para tragá-los com seus perigos, o espectador têm a sensação fugidia e balsâmica de que, pelo menos aquela noite será calma e protetora para seus personagens.
Há horas que os animais assumem as cenas principais de forma ativa, comunicando-se pelo olhar e pela postura com os humanos. É a cena com a burrinha que, através da janela, comunica à menina que ocorreu algo no estábulo ,terrível : o assassinato do menino pelo rapaz Jaibo. A menina, através do olhar do animal fixo no seu, “entende” o recado. Cá entre nós, não é raro que esta comunicação ocorra entre um animal e uma criança, ao invés, por exemplo, do animal com o avô desta. Muitas vezes as crianças, por não terem incorporado ainda os pré-conceitos contra os animais injetados na sociedade adulta, os “ouvem” e percebem muito melhor. Em oposição a isso, os adultos costumam ver os animais apenas como base da sua atividade econômica. “Cuidado com os animais”, frase do avô, relaciona-se muito mais com evitar o roubo do sustento que o leite da burrinha lhes dá, do que cuidar dos animais em si, pela amizade, pela afetividade (embora, sejamos justos, o avô é um dos personagens mais responsáveis e afetivos do filme). De qualquer forma o avô cuida da menina, que nele muito confia, e sua preocupação com os animais é exemplar para ela que os cuida ( o valor do exemplo).
Aliás , também não é de se estranhar que menina alta e o menino mexicano se sintam atraídos um pelo outro, apesar da grande diferença de idade. Ambos sabem das forças da natureza, descobrem-se vagamente homem e mulher, conhecem através dos animais o afeto, trocam presentes, se protegem um ao outro.
É muito curioso que os melhores personagens, aqueles que possuem mais características de boa índole, são justamente os que interagem de forma harmônica com a natureza, fazendo parte dela ao invés de tentar dominá-la como o faz ininterruptamente Jaibo , o personagem que é mais agressivo. A cena do menino do campo, mamando diretamente o leite nas mamas da burrinha, assaltando de espanto ao outro menino e ao espectador, é simplesmente antológica. Seu significado é que não há nenhuma barreira entre ele e a natureza, apenas a simbiose, a verdade, o fim das imposturas. A cena nos diz claramente, sem que se deixe nenhuma dúvida: Somos todos animais, não há diferença essencial!
A boa índole do menino preterido da mãe – reconhecida por esta particularidade, mais adiante, pelo diretor do instituto de correção de meninos infratores – é confirmada explicitamente por sua frase desesperada dirigida à mãe: “Não bata nos animais!”. E nesta hora o espancamento das galinhas é mostrado durante alguns segundos. Não fosse cena importante, preciosa para o entendimento da trama, Buñuel não a teria escolhido. Buñuel sabia o que fazia, era muito específico. A crueldade para com os animais, desejava o cineasta dizer e demonstrar, está ligada de forma íntima a ambientes propícios à violência humana. E nela funciona um ‘jogo de passar o bastão’ em que os menos favorecidos, aqueles que menos se podem defender (crianças, deficientes, velhos, animais, mulheres), são os receptores finais da violência em seu estado máximo. E é bom lembrar que é este mesmo menino que mais adiante matará cruelmente as galinhas do instituto correcional, de forma reativa e impensada, como em uma canalização incorreta de sua raiva por tantas injustiças que lhe são cometidas. É assim que o justo torna-se injusto.
domingo, 19 de junho de 2011
Relação de filmes exibidos no primeiro trimestre de 2011 pelo Cineclube da Casa
29/01 - Teorema, de Pier Paolo Pasolini05/02 - Simão do Deserto, de Luis Buñuel
12/02 - O Outro Lado, de Akim Fatah
19/02 - A Dança dos Vampiros, de Roman Polanski
26/02 - Insolação, de Daniela Thomas e Felipe Hirsh (imagem abaixo)
08/03 - O Homem do Corpo Fechado
12/03 - Limite, de Mário Peixoto
19/03 - A Ilusão Viaja de Trem, de Luis Buñuel
26/03 - Bethânia Bem de Perto, de Júlio Bressane
02/04 - Viridiana, de Luis Buñuel (imagem acima)
09/04 - Alemanha Ano Zero, de Roberto Rosselini
16/04 - Programa Ensaio com Elis Regina, de Fernando Faro
23/04 - A Via Láctea, de Luis Buñuel
30/04 - Os Incompreendidos, de François Truffaut

terça-feira, 14 de junho de 2011
A Estrada da Vida

sexta-feira, 10 de junho de 2011
Menino de Engenho

quarta-feira, 1 de junho de 2011
Abismos de Pasion

quarta-feira, 25 de maio de 2011
Je Vous Salue, Marie

A crítica de Eulàlia
Este filme escrito e filmado por Jean Luc-Godard em 1985 têm um viés psicanalítico muito interessante. Aliás, o olhar genial de Godard deixa muito espaço para novos ângulos críticos , novas propostas, sobre uma história muito conhecida no Ocidente, a história de Maria, a virgem que teve um filho-deus.
Temos também no filme, outra mulher cuja referência bíblica é de peso, Eva. Eva enamora-se do professor, o professor que fala sobre fatos e teorias que remetem à criação do mundo, da vida. A união dos dois ocorre de forma paradisíaca, mas a expulsão do paraíso é a conta a se pagar: ele é casado, não pretende abandonar a mulher para ficar com Eva. A separação é cortante, terrena demais. Este casal que representa o primeiro casal a inaugurar o mundo, que cedo chega ao clímax, que se deixa levar pelos prazeres da carne, pelas sensualidades, enfim, que “mordeu a maça”, se contrapõe fortemente ao casal formado por Maria e José.
José é um taxista, que se ocupa como seu ancestral, e assim como tantos homens atuais, do transporte. Sua ação, embora pareça periférica, de menor importância, é de fato essencial. O que teria sido de Maria, a original, se José não a tivesse guiado até o local do parto, lhe dado algum conforto, mesmo que em um estábulo? E José já se afirma nas primeiras cenas como um homem nivelado ao plano animal onde ele e seu cão são um só: trabalham juntos no carro, lêem livros juntos. Para José não há nenhum problema em ler para o cão. Ambos se entendem em seus instintos, são inerentemente bons, e têm a espontaneidade que agrada à futura mãe de deus.
Ele também é um personagem que a todos deixa desconcertados, na história, no filme.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Limite
Neste sábado, 21 de Maio de 2011, às 17 horas, no Cineclube da Casa:Limite, de Mário Peixoto, Brasil, 1930
Durante meio século, todos falavam de "Limite", mas poucos o tinham visto. Agora ele pode ser visto.
Num barco à deriva no mar, um homem e duas mulheres desistem de remar, conformados com seu destino.
Isto é "Limite", filmado por Mário Peixoto em Mangaratiba, litoral do Rio de Janeiro, e exibido pela primeira vez em 17 de maio de 1931 - há exatos 80 anos - no cinema Capitólio, localizado na Cinelândia, numa iniciativa do Chaplin Clube.
Depois dessa primeira exibição no Brasil, o filme ficou desaparecido durante meio século. Quase se perdeu, não fosse a obstinação de alguns amigos de Peixoto. Tornou-se um mito do Cinema Brasileiro - um filme no qual todos falavam, mas quase ninguém tinha visto até 1976, quando uma cópia foi apresentada com várias lacunas - em Belo Horizonte, na Sala Humberto Mauro.
"Limite" se tornou uma obra referencia do cinema brasileiro - sua primeira obra-prima, um modelo de "cinema puro", feito de imagens rebuscadas que o aproximavam da "avant-garde" francesa. Quando o realizou, Peixoto tinha apenas 20 anos. Nascera na Bélgica e estudara na Europa. Foi seu único filme finalizado. Dois outros deixou inacabados. Escreveu romances e roteiros cinematográficos. Alguns foram publicados. Morreu em 1992, no Rio de Janeiro.
Trechos de "Limite" estão em "Cinema Falado", filme de Caetano Veloso, e no dvd Partimpim, o Show, de Adriana Calcanhoto. Um curta, "O Homem e o Limite", e um longa, "Onde a Terra Acaba", tratam de "Limite". David Bowie colocou o filme entre os seus favoritos. Eisenstein, o realizador de "O Encouraçado Potemkim", teria escrito sobre ele. O maior historiador do cinema, Georges Sadoul, veio ao Brasil, nos anos 1960, para ver "Limite" e não o conseguiu. Glauber foi talvez o único que torceu o nariz para "Limite". Mudo, o filme foi musicado (com discos) por Peixoto e Brutus Pedreira (ator no filme) com composições de Eric Satie, Stravinsky, Cesar Frank, Debussy e outros; posteriormente, elas foram incorporadas à trilha sonora.
A cópia que apresentaremos é a restaurada pelo CATV da Funarte.
(Resenha: Victor de Almeida)
domingo, 15 de maio de 2011
Jogos Educativos
Temos Caça Palavras, Labirinto, Escape, Senha, Ludo, Torre de Hanói, Dominó de Quatro Cores, Ábaco, Torremoto, Gamão, Xadrez, Capitão Cook, Bingo, Dama, Dominó, Jogo da Velha, Pega Vareta, Tanguan e Carrossel.
Boa parte deles foi adquirida em Mateus Leme mesmo, de uma fabricante local. Para quem quiser conhecer e jogar os jogos, basta visitar a Casa de Cultura aos finais de semana, ou entrar em contato com a MiniArtes - Artesanato em Madeira, cujos telefones de contato são (31) 3535-1085 e (31) 9651-8459.
quarta-feira, 11 de maio de 2011
O Anjo Exterminador
Neste sábado, 14 de Maio de 2011, às 17 horas:sábado, 7 de maio de 2011
Revistas Culturais





A Casa de Cultura, como Ponto de Leitura reconhecido pelo Governo Federal desde 2009, foi contemplada pelo Ministério da Cultura com a assinatura de alguns periódicos de relevância cultural em âmbito nacional e mundial. São eles: Revista Piauí, Cult, Viração, Fórum - Outro Mundo em Debate, Raça Brasil, Carta na Escola, Jornal Rascunho, Le Monde Diplomatique Brasil, Almanaque Brasil de Cultura Popular e Revista Rolling Stone. As revistas estão chegando desde o mês de Fevereiro e o período da assinatura é de um ano. As edições mais recentes de cada uma podem ser consultadas no período de funcionamento da Casa - sábados e domingos, das 14 às 18 horas. Os exemplares mais antigos estão disponíveis para empréstimo, assim como alguns livros, fitas em vhs, dvds que compõem a nossa biblioteca.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Mulheres À Beira de Um Ataque de Nervos
terça-feira, 26 de maio de 2009
segunda-feira, 20 de abril de 2009
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Reflita...
Ignace Ramonet, diretor do "Le Monde Diplomatique" e um dos agudos analistas da situação mundial, chamou a atual crise econômico-financeira de "a crise perfeita". Putin, em Davos, a chamou de "a tempestade perfeita". Eu, de minha parte, a chamaria de "o buraco perfeito". O grupo que compõe a Iniciativa Carta da Terra (M. Gorbachov, S. Rockfeller, M.Strong e eu mesmo, entre outros) há anos advertia: "não podemos continuar pelo caminho já andado, por mais plano que se apresente, pois lá na frente ele encontra um buraco abissal". Como um "ritornello", o repetia também o Forum Social Mundial desde sua primeira edição em Porto Alegre em 2001. Pois chegou o momento em que o buraco apareceu. Lá para dentro caíram bancos, fábricas, corporações transnacionais e US$50 trilhões de fortunas pessoais. Stephen Roach, do banco Morgan Stanley, também afetado, confessou: "Errou Wall Street. Erraram os reguladores. Erraram as agências de avaliação de risco. Erramos todos nós". Mas não teve a humildade de reconhecer: "Acertou o Forum Social Mundial. Acertaram os ambientalistas. Acertaram grandes nomes do pensamento ecológico como J. Lovelock, E. Wilson e E. Morin".
Em outras palavras, os que se imaginavam senhores do mundo a ponto de decretarem o fim da história, sustentarem a impossibilidade de qualquer alternativa e que promulgaram dogmas da perfeita autorregulação dos mercados e da única via do capitalismo globalizado, perderam todo o seu latim. O FSM, sem orgulho, mas sinceramente, pode dizer: "nosso diagnóstico estava correto. Não temos a alternativa ainda, mas uma certeza se impõe: esse tipo de mundo não tem mais condições de continuar e de projetar um futuro de inclusão e de esperança para a humanidade e para toda a comunidade de vida". Se prosseguir, ele pode pôr fim à vida humana e ferir gravemente a Mãe Terra.
Seus ideólogos talvez não creiam mais em dogmas e se contentem ainda com o catecismo neoliberal. Mas procuram um bode expiatório. Dizem: "Não é o capitalismo em si que está em crise. É o capitalismo de viés norte-americano que gasta um dinheiro que não tem em coisas que o povo não precisa". Ken Rosen, da Universidade de Berkeley, pelo menos, reconheceu: "O modelo dos Estados Unidos está errado. Se o mundo todo utilizasse o mesmo modelo, nós não existiríamos mais".
Há aqui palmar engano. A razão da crise está na lógica mesma do capitalismo. Já foi reconhecido por políticos (como J. Chirac) e cientistas que, se quiséssemos generalizar o bem-estar dos países opulentos para toda a humanidade, precisaríamos pelo menos de três Terras iguais à atual. O capitalismo, em sua natureza, é voraz, acumulador, depredador da natureza, criador de desigualdades e não tem sentido de solidariedade para com as gerações atuais e muito menos para com as futuras. Ele é feroz por natureza. Assim, ao capitalismo pouco importa o lugar de sua realização, se nos EUA, na Europa, no Japão ou mesmo no Brasil. Ele coisifica todas as coisas, a Terra, a natureza, os seres vivos e também os humanos. Tudo está no mercado e de tudo se pode fazer negócio. Esse modo de habitar o mundo, regido apenas pela razão utilitarista e egocêntrica, cavou o buraco perfeito. E nele caiu.
A questão não é econômica. É moral e espiritual. Só sairemos da crise a partir de uma outra relação para com a natureza, sentindo-nos parte dela e vivendo a inteligência do coração que nos faz amar e respeitar a vida e a cada ser. Caso contrário, continuaremos no buraco a que o capitalismo nos jogou.
(*) Transcrito de O Tempo (Opinião, 6.2.2009)
Breves
Programação 2009
Para outras informações entre em contato por email casaculturamateusleme@gmail.com





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